Vamos pensar o Futuro hoje

(parte 2)

“Aprendamos com as lições da História.”

(Crónica de Ana Castro Neves, Médica Especialista em Imunoalergologia)

Num mundo em constante mudança muitos são aqueles que, de forma narcísica, procuram o poder, a força, a auto-glorificação, ter visibilidade e o sucesso.

Sucesso esse, muitas vezes, medido pelo número de “likes” e seguidores nas redes sociais e pela ambição desenfreada dos bens materiais que são acumulados, desnecessariamente, numa tentativa de transmissão de segurança e preenchimento de vazio existencial.  Contribuímos assim para manter o padrão centrado num modelo económico fundado no lucro.

As atitudes tóxicas de rivalidade, de competitividade, de consumismo excessivo torna-nos escravos do dinheiro e das tecnologias, aliena-nos da realidade e afasta-nos do que é essencial.

As tecnologias devem estar ao Serviço da humanidade e não fazerem de nós reféns.

Reitero que uma reflexão tem por objectivo analisar o passado e corrigir erros, falhas, tendo sempre como objectivo melhorar. Aprendamos com as lições da História. Há um ano relembrava a revolução industrial que prometia melhores condições de vida e de trabalho; no entanto, analisemos o que aconteceu… Atualmente, diria que vivemos na era da revolução tecnológica que nos empurra silenciosamente para uma nova forma de escravatura, onde existe uma obsessão por reduzir os custos laborais e os custos humanos.

Temos que repensar a sociedade e a economia.

Citando o Papa Francisco “é importante dar dignidade ao homem com o trabalho, mas também dar dignidade ao trabalho do homem, porque o homem é senhor e não escravo do trabalho.”

PANDEMIA E CIÊNCIA

Se há um ano escrevia que a Pandemia unificou o mundo e que fomos testemunhas do esforço mundial e empenho de todas as nações na busca por uma solução, surgindo assim a vacina, como um triunfo da fraternidade, hoje penso que ficámos aquém.

A corrida global às vacinas expôs o egoísmo dos países mais ricos. A 6 de fevereiro de 2021 a BBC noticiava que “Os países desenvolvidos têm 16% da população mundial, mas atualmente respondem por 60% das doses de vacina que foram vendidas”. António Guterres considerou um “ultraje moral” a distribuição desigual das vacinas. Constatou que “10 países administraram 75% de todas as vacinas da Covid-19, enquanto que 130 países ainda não receberam uma única dose.”

Continuamos a negligenciar o nosso lugar no mundo e a não compreender que a ajuda mútua beneficia todos. Quanto maior for a circulação do vírus, maior é a probabilidade de ocorrerem novas mutações. Por outro lado, é necessário não esquecer outras epidemias como a fome, as guerras, o terrorismo, a exploração indiferente dos recursos humanos, geradoras de miséria e de mortes que podem ser evitadas.

Crédito fotográfico: Ana Neves

A valorização, defesa e proteção da vida humana, independentemente da sua idade ou condição, são valores que estão consagrados na declaração universal dos direitos humanos, mas também no juramento que os médicos fazem quando iniciam o exercício da profissão, onde prometem que “A saúde do meu doente será a minha primeira preocupação” bem como no seu código deontológico.

“O diálogo respeitoso e construtivo que conduz à convergência, respeitando as diferenças, … colocando de parte as conveniências pessoais e interesses ideológicos, …, deve ter como único propósito a procura pelo bem comum.”

É essencial combater a desinformação e as ideias erradas que são disseminadas rapidamente, prejudicando o bem-estar comum.  É importante não confundir as opiniões pessoais, que são muitas vezes influenciadas por informações especulativas, falsas, mediáticas, contraditórias e oportunistas que prejudicam a relação de confiança entre os médicos e os doentes e servem para alimentar polémicas desnecessárias, com as opiniões fundamentadas. As fontes devem ser identificadas e a sua veracidade e fiabilidade verificadas.

A população precisa entender que a Ciência não é perfeita, que a dúvida é inerente à investigação científica e que a sua evolução é dinâmica. A comunicação em Saúde é fundamental e deve ser esclarecedora, feita de uma forma responsável, adequada ao entendimento da população em geral, procurando responder às inquietações da mesma, mas sempre fundamentada e apoiada na melhor evidência disponível.

O reconhecimento de que ninguém é detentor da “verdade absoluta” e de que todos estamos continuamente em processo de aprendizagem deve fazer-nos procurar o debate saudável. O diálogo respeitoso e construtivo que conduz à convergência, respeitando as diferenças, analisando-as e integrando-as, colocando de parte as conveniências pessoais e interesses ideológicos, económicos, políticos ou outros do próprio ou doutrem, deve ter como único propósito a procura pelo bem comum.

Assim, as decisões tomadas em consenso são, pois, mais robustas e feitas no melhor interesse de todos.

(Nota do editor: Este texto pertence a uma reflexão maior que, com algumas adaptações, já foi publicado na revista Ímpar, do Público. A última parte desta reflexão sairá nos próximos dias.)

Carlos Silva

Depois de uma viagem tranquila, mergulhado num mar de dúvidas, aportei a 2 de setembro de 1999, à Ilha do Porto Santo! À chegada, uma doce e quente onda de calor, qual afago de mulher amada, assaltou-me, até hoje! Do sucedido de então, até aos dias de hoje, guardo-o na memória; os sucessos, de hoje em diante, aqui ficam, para memória futura, da minha passagem pela Ilha!

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