Renovação de Esperanças (parte 1)

“As pessoas vivem mais conectadas, mas menos ligadas.

(Crónica de Ana Castro Neves, Médica Especialista em Imunoalergologia)

TEMPO. Sempre o Tempo. Esse bem precioso, do qual dependemos e o qual desvalorizamos, quando vivemos ignorando a sua finitude.

“Esperamos sempre muito de um ano, depositamos uma grande fé e esperança naquilo que ele nos possa vir a trazer e na verdade, é ele, é sempre ele que espera que nós lhe tragamos tudo…” (Fernando Alvim). Só através de uma transformação de atitudes e consciências poderemos ter um ano melhor.

Há um ano escrevia que vivemos a uma velocidade frenética e que a pandemia nos tinha obrigado a desacelerar e convidado a reflectir. Hoje questiono-me se de facto teremos feito essa reflexão. Seremos capazes de recuperar a capacidade de escutar os outros? Seremos capazes de mudar o padrão? Damos significado aos nossos dias? Escolhemos melhorar? Fomos mais solidários e procurámos o amor fraterno?

AMIZADE E RELAÇÕES SOCIAIS

se conhece bem as coisas que cativamos.” Crédito fotográfico: Ana Neves

É inegável que o avanço tecnológico das últimas décadas foi fundamental, durante o período de confinamento, permitindo minimizar o isolamento e, em certa medida, diminuir a sensação de solidão. Os diferentes meios de comunicação e as redes sociais foram um importante canal facilitador da interação humana. Contudo, a comunicação não é feita apenas através da linguagem verbal, ou seja, através de mensagens, pelo que esta forma de comunicar é deficitária. A nossa sociabilidade requer a presença física, a comunicação não verbal … o olhar, os gestos, a aparência, as expressões, o cheiro, o toque, capazes de despertar comportamentos e emoções que são essenciais e indispensáveis na passagem de uma mensagem e na criação de vínculos.

Desconfinámos.

Tenho a percepção que o desejo profundo de recuperar a vida que tinha ficado suspensa, fez-nos voltar aos padrões anteriores. Voltámos a acelerar.

É frequente assistirmos a pessoas utilizando desaforadamente os smartphones em restaurantes, bares e cafés, privilegiando as interações virtuais em detrimento do usufruto da companhia física daqueles que escolheram para passar o TEMPO.

É necessário ter consciência que, no digital, são projectadas características idealizadas que, muitas vezes, não correspondem necessariamente ao que as pessoas são ou ao que sentem, contribuindo paradoxalmente para a criação de um terreno fértil para a solidão, para os medos e inseguranças de tantas pessoas. As pessoas vivem mais conectadas, mas menos ligadas. As relações são mais superficiais, existindo uma distorção do conceito de amizade e uma falsa sensação de intimidade. Tudo está ao alcance de um “click”. Com a mesma rapidez e facilidade com que se envia um pedido de amizade, uma mensagem, uma fotografia, também se descarta, surgindo assim novos fenómenos como: a nomofobia, ghosting, hauntig, benching ou phubbing.

É necessário repensar a forma como nos relacionamos pessoal e socialmente. Neste sentido relembro as palavras de Antoine de Saint Exupéry através do diálogo entre o Principezinho e a Raposa e o Principezinho e as Rosas.

“Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste. Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda. Que quer dizer cativar? Perguntou o principezinho. É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa “criar laços”.

(…). Só se conhece bem as coisas que cativamos. Os homens não têm mais tempo de conhecer nada. Compram as coisas prontas nas lojas. Mas, como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se queres um amigo, cativa-me. O que é preciso fazer? – perguntou o principezinho. É preciso ter muita paciência, respondeu a raposa (…) A linguagem é uma fonte de mal-entendidos.

Percebendo o ensinamento da Raposa, o Principezinho responde às Rosas “vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes ninguém (…). Sois belas, mas vazias. (…) ela sozinha é mais importante do que vós todas, pois foi ela que reguei. Pois foi ela que coloquei sob a redoma. Pois foi ela que protegi com o pára-vento. Pois foi a ela que removi e matei as lagartas (excepto duas ou três para as borboletas). Pois foi ela que escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.”

Eis o segredo que a Raposa partilha com o Principezinhosó se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos (…). Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que fez a tua rosa tão importante(…). Os homens esqueceram essa verdade mas tu não a deves esquecer. Tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas.”

“É preciso ter coragem para o compromisso. Reconhecer que somos seres imperfeitos e frágeis…”

É urgente compreender que o digital é um “meio” que tem o propósito de facilitar a interacção, mas que não consegue suprir a necessidade do contacto um do outro e tem até o perigo de aumentar a inadaptabilidade ao mundo real e à convivência. Este estilo de vida transformando tudo em “clicks” e mensagens rápidas é perigoso, porque nos afasta da verdadeira sabedoria que se adquire através do contacto com a realidade.

É preciso ter coragem para o compromisso. Reconhecer que somos seres imperfeitos e frágeis e que é através do encontro com o outro que existe um “eu”. Recuperar o desejo mútuo de conhecer o outro, de conviver, de criar intimidade partilhando as dificuldades, os momentos de alegria e de tristeza, construindo e fortalecendo ligações e reforçando a cumplicidade. Não ter medo de expor a sua vulnerabilidade. É imprescindível sair de si e ir ao encontro, ter uma atitude receptiva, recuperar a capacidade escutar os outros, a capacidade de olhar nos olhos e ser verdadeiro. Ter mais responsabilidade afectiva. Pensemos como aproveitar sabiamente o nosso tempo. Prescindamos do descarte rápido feito através de um “click” como se de objectos se tratasse.

Como diz a Raposa, é preciso tempo e paciência. TEMPO para conhecer, compreender, amadurecer.

(Nota do editor: Este texto pertence a uma reflexão maior que, com algumas adaptações, já foi publicado na revista Ímpar, do Público. As partes 2 e 3 desta reflexão sairão nos próximos dias.)

Carlos Silva

Depois de uma viagem tranquila, mergulhado num mar de dúvidas, aportei a 2 de setembro de 1999, à Ilha do Porto Santo! À chegada, uma doce e quente onda de calor, qual afago de mulher amada, assaltou-me, até hoje! Do sucedido de então, até aos dias de hoje, guardo-o na memória; os sucessos, de hoje em diante, aqui ficam, para memória futura, da minha passagem pela Ilha!

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