Porto Santo Antigamente: 3500 registos da História de um povo

Padrão dos Descobrimentos (1960) Crédito: Museu de Fotografia da Madeira

Flávio Vasconcelos, a alma por trás do projeto Porto Santo Antigamente, costuma dizer que “UM POVO SEM MEMÓRIA É UM POVO SEM HISTÓRIA”. Do seu laborioso trabalho de recolha e divulgação dos registos fotográficos, alguns com mais de cem anos, resultou um extraordinário acervo, de milhares de registos. Uma memória única! Um testemunho vivo da resiliência e carácter do povo porto-santense. Para conhecer a Ilha é preciso consultar a página Porto Santo Antigamente.

Jornal digital A Ilha (A Ilha): Como nasce o projeto Porto Santo Antigamente?

Porto Santo Antigamente: Este projeto nasce aquando da minha saída da Ilha, para estudar, no ensino Superior. O fascínio pela História e vivências da minha Terra sempre me interessaram. De tal forma que, quando temos presente a vida dos mais “antigos”, são inevitáveis as questões sobre o dia a dia dos mesmos. E que fique claro, eram muito difíceis. Muito difíceis! Mas só a 7 de Janeiro de 2013 passei esta minha paixão para uma rede social – Facebook, e agora Instagram. Por forma a abrir uma janela para todos aqueles que desconhecem o passado da Ilha e, de igual modo, fazer recordar a todos os que passaram fisicamente por isso. Já dizia Saramago que “para vermos a Ilha, é necessário sairmos da Ilha”. Foi assim que comecei a olhar para ela, não apenas como a terra que me viu nascer, mas como a Ilha que levaria para sempre comigo. Isto quando me ausentei.

Flávio Vasconcelos e a página Porto Santo Antigamente abriram uma janela para o passado

A Ilha: Este projeto já reuniu seguramente, centenas de registos fotográficos, consegue concretizar quantos?

Porto Santo Antigamente: São, de facto, muitos registos aqueles que adquiri ao longo do tempo, mas, em números redondos, tenho cerca de 3500 fotos. Muitas delas enviadas digitalmente, e outras via correio, o que não deixa de ser interessante. Não há um dia, e não exagerando, que não pesquise ou trabalhe uma foto para posteriormente publicar ou arquivar.

É uma paixão, já não considero um simples passatempo, mas sim uma paixão. Das mesmas, tenho feedbacks, desde o Canadá à Austrália, o que é gratificante, porque foram muitos aqueles que direta ou indiretamente estiveram ligados a esta Ilha, que não mais foi que a porta de saída para os Descobrimentos Portugueses.

É uma ilha pequena em dimensão, mas grande na História, e temos de evidenciar e eternizar essa conquista.

A Ilha: – Qual o mais antigo registo que possui?

Porto Santo Antigamente: É muito curiosa esta sua questão. É gratificante passar na rua e ser abordado: “Você é o da página Porto Santo Antigamente!”. E é um facto que fazem essa questão muitas das vezes, no que concerne à antiguidade dos registos.

Fábrica das Conservas (1946 e 1979) garantiu o ganha pão de muitos porto-santenses.

Mas as fotos mais antigas que tenho são da segunda metade do século XIX. Todos os registos têm a mesma importância e valor mas, tenho um especial carinho pelas fotos da laboração da Fábrica das Conservas, pois aí são muitos o detalhes que vejo, quer na importância para o desenvolvimento da Ilha, quer na importância para cada uma daquelas 150 Mulheres e 30 Homens que viram ali o seu ganha pão.

A Ilha: – E o mais recente?

Porto Santo Antigamente: – As fotos mais recentes que tenho e que também vou publicando são dos finais da década de 1990 que também têm uma projeção considerável.

Gosto de mostrar e fazer algumas comparações do “antes e depois” e fazer ver que a nossa Ilha foi evoluindo ao longo do tempo, mas, muitas das vezes, anula-se o nosso património, e aí acabamos por tirar um pouco de nós fisicamente, da nossa essência, das nossas memórias que o património também nos transmite.

A Ilha: – Certamente que ao longo deste projeto se deparou com reações e testemunhos únicos. Quer partilhar alguma história/testemunho marcante?

O que mais me marcou neste últimos anos foi o encontro de familiares que já não se falavam há muitos anos.

Porto Santo Antigamente: – Ao longo deste tempo recebi milhares de fotografias, Histórias e testemunhos. São muitos, sem sombra de dúvida e, é daí que advêm, também, muito do meu conhecimento sobre o Porto Santo.

O que mais me marcou neste últimos anos foi o encontro de familiares que já não se falavam há muitos anos. Publiquei uma foto, como faço muitas das vezes, de um grupo de pessoas junto ao Cais, aquando da visita de Craveiro Lopes à Ilha, isto em 1955, e deparo-me com comentários que levaram ao encontro de familiares que tinham perdido contacto.

Ajudei as mesmas nesse sentido, através de mensagens para que pudessem reencontrar. Isso deixou-me bastante sensibilizado, pois foi através destes registo que isto aconteceu. Estas fotos são como uma Janela para as nossas memórias e vivências, e que nos deixa sempre nostálgicos. Somos o resultado do nosso passado, e devemos ser fiéis às nossas raízes e, quando vejo os feedbacks das pessoas, não posso ficar mais contente.

A Ilha: – Além da divulgação da História do Porto Santo nas redes sociais, tem outros projetos para este extraordinário projeto e o material reunido?

Somos um povo lutador desde há muito

Porto Santo Antigamente: – Costumo repetir vezes sem conta que “Um Povo sem memória é um povo sem História”, e, com este projeto quero eternizar tudo aquilo que nos confere, enquanto pessoas. Em tempos, houve uma tentativa de levar a população Porto-Santense para a Madeira, e o Santo da Serra foi o local escolhido. Tal facto foi concebido e chegaram mesmo a deslocar-se cerca de 300 pessoas, tais eram as dificuldades. Isto e muito mais! Somos um povo lutador desde há muito, e isso deve ser trazido novamente, porque faz parte da nossa História, do nosso desenvolvimento enquanto sociedade, e, é a partir desses pergaminhos que se consegue mostrar, aos nossos “mais novos” e a todos os que nos visitam, a nossa verdadeira essência – o nosso sangue. Fomos e somos lutadores!.

“UM POVO SEM MEMÓRIA É UM POVO SEM HISTÓRIA”

Tenho vários projetos para esta página e quero concretizá-los, porque será uma mais valia para nós Porto-santenses. Não sei se já se apercebeu, mas, esta pandemia, trouxe-nos uma maior nostalgia, e são muitos aqueles que recorrem aos antigos registos para vivê-los novamente. O nosso património são mensagens físicas para os nossos e para todos os que nos visitam. Temos de preservar e fazer dele uma arma para o combate à sazonalidade, é muito importante. Um povo faz-se de História, de vivências e essas podem ser eternizadas com a conservação do nosso património edificado. Acabo, dizendo: – “UM POVO SEM MEMÓRIA É UM POVO SEM HISTÓRIA”.

Carlos Silva

Depois de uma viagem tranquila, mergulhado num mar de dúvidas, aportei a 2 de setembro de 1999, à Ilha do Porto Santo! À chegada, uma doce e quente onda de calor, qual afago de mulher amada, assaltou-me, até hoje! Do sucedido de então, até aos dias de hoje, guardo-o na memória; os sucessos, de hoje em diante, aqui ficam, para memória futura, da minha passagem pela Ilha!

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