Mãe, tenho tantas saudades tuas! (II)

Last Updated on 11/15/2020 18:22 by Carlos Silva

“… após uma adolescência inteira passada no Porto Santo.  Que falta me faz ter tudo tão perto!”

por Lécia Rodrigues

A verdade é que, com isto tudo, já se passaram dez minutos desde que cheguei aqui e me deparei com esta depressão social.

Eu não sou a única com este estado de espírito abalado. Por exemplo, tenho a certeza de que aquele aluno de fisioterapia, ali ao fundo, já nem é capaz de massajar uma pessoa lesionada sem, pelo menos, pensar que a sua coxa ficaria bem acompanhada com batata a murro. Mais, aposto que aquela rapariga com o telemóvel ao ouvido, que ao que parece está a queixar-se de toda esta situação, é caloira e, digo eu, entrou na segunda fase. Coitada, ainda não teve tempo para descobrir que os problemas dela, cabe-lhe a ela resolver (Conto eu, ou contas tu?).

Cantina da universidade fechada

Os únicos que se safam são mesmo, salvo qualquer ofensa, a equipa do micro-ondas. Então? Eles trazem a comida feita de casa! Claro que depois, na hora da refeição, só a têm de aquecer. Não os culpo! Digo com orgulho que já fiz parte dessa equipa, até pensei seriamente em candidatar-me a presidente (dizem que não tenho de esperar na fila!). Passo a explicar que, a razão pela qual desisti, não foi tomada de ânimo leve! E digo mais, senti-me obrigada a fazê-lo! É que agora, a dividir a casa com dois rapazes, mesmo quando sobra comida do jantar, por volta mais ou menos da uma da manhã, algum deles fará a honra de cear. O meu professor de Biotecnologia Animal claro que não chamaria de ceia, chamaria claramente de ténia.

“Chegar a casa e ainda ficar indignada, porque os meus pais não me fizeram o almoço!”

Desisto de olhar para os outros e sento-me no sítio mais próximo, eu e os meus amigos. A ideia agora é debater as soluções que temos. Um, muito rápido, decide ir a uma daquelas máquinas prontas a servir, que eu tanto insisto em chamar de “máquina do Sr. Mimoso”. Associação esta que eles não conseguem perceber, mas que é um hábito impossível de não manter após uma adolescência inteira passada no Porto Santo.  Que falta me faz ter tudo tão perto! Aqui, para conseguir almoçar em casa, teria que, mesmo antes de esperar pelo autocarro, esperar que ele não se atrasasse. Chegar a casa e ainda ficar indignada, porque os meus pais não me fizeram o almoço!  Porque, sim, às vezes, ainda me esqueço que eles não estão cá para me fazerem as vontades (e eu que pensava que a roupa se estendia sozinha!). Regalias que um jovem universitário deslocado não se pode dar ao luxo de ter. É pena, realmente os pais não servem só para dar amor!

Com isto tudo, já se faz tarde. Alguns dos meus amigos parecem já ter aceite a condição de greve de fome. Outros foram à cantina da faculdade do lado. Uma decisão inteligente! Eu, porém, não sou apologista de greves (pelo menos daquelas que implicam não comer quando tenho fome). E também não quero dar oportunidade aos engenheiros de gozarem com os alunos de saúde, por parecem menos saudáveis que eles! Acabo por decidir que devo, nada mais, nada menos que adiar este problema. Como, então, o lanche que tinha preparado para meio da tarde. Se me vou arrepender daqui a três horas, quando estiver no intervalo e apetecer-me comê-lo? Claro que sim! Mas sabem que mais? Que bom que ele estava.

Lécia Rodrigues

Carlos Silva

Depois de uma viagem tranquila, mergulhado num mar de dúvidas, aportei a 2 de setembro de 1999, à Ilha do Porto Santo! À chegada, uma doce e quente onda de calor, qual afago de mulher amada, assaltou-me, até hoje! Do sucedido de então, até aos dias de hoje, guardo-o na memória; os sucessos, de hoje em diante, aqui ficam, para memória futura, da minha passagem pela Ilha!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Next Post

Não temos medo de lutas desiguais

Sáb Nov 14 , 2020
Last Updated on 11/15/2020 18:22 by Carlos Silva Esta é a convicção de João Ferreira. O eurodeputado e também candidato às eleições presenciais do próximo ano, pelo Partido Comunista Português, esteve hoje no Porto Santo. Acompanhado pelo rosto mais conhecido de entre os comunistas madeirenses, Edgar Silva, o candidato manteve […]