Crónica de uma quarentena anunciada

“Portugueses de primeira, madeirenses de segunda”

(Artigo de opinião de Luís Pedro Melim)


Quantas e quantas vezes já não ouvimos o anterior e o atual Presidente do Governo Regional da Madeira a acusar o “Estado Central” de tratar os madeirenses como portugueses de segunda categoria?


Quantas e quantas vezes se reivindicou tudo e “mais um par de botas” da parte da “República” (entre aspas, pois não me refiro à República Portuguesa, da qual a Madeira faz parte, mas sim à parte continental do território português)? Quantas e quantas foram as acusações de “colonialismo” e “centralização de poderes de Lisboa” feitas até hoje? Todos sabemos as respostas…
Se, em alguns dos casos, posso dar a mão à palmatória e admitir que possa existir alguma destas situações que anteriormente referi, também não deixa de ser verdade que, muitas e muitas vezes, se assiste a um discurso de vitimização por parte dos protagonistas centrais desta série que é o período entre eleições, qual birrinha entre crianças pelo melhor doce.

“a maioria dos continentais, não imagina nem consegue conceber a ideia de festejarmos o Natal durante cerca de um mês e meio. Ficam espantados…”


Bom, mas indo àquilo que me trouxe aqui…
Após cerca de um ano e meio sem vir àquela que é a terra que me viu nascer, decidi vir passar este período festivo entre os meus. Quem conhece um madeirense/porto-santense, sabe muito bem a forma como estes
vivem o período de Natal. Confesso que, a maioria dos continentais, não imagina nem consegue conceber a ideia de festejarmos o Natal durante cerca de um mês e meio. Ficam espantados…


Assim, tal como qualquer cidadão comum, marquei a minha passagem e apanhei o meu voo para o Porto Santo, via Madeira.
Sim, já sabia que, devido a esta crise pandémica, teria que efetuar teste ao
“bicho”. Entretanto, o Governo Regional decidiu que, “todos os residentes no território da RAM que viessem de fora da Região de avião ou barco” teriam que, entre o 5º e o 7º dia após a minha aterragem na Madeira, efetuar um segundo teste de bicheza, e ficar em “isolamento profilático” até à obtenção do resultado do segundo teste. Comecei a pensar com os meus botões e achei que, sim senhor, era uma boa medida…, mas continuando o meu pensamento, questionei-me acerca daqueles tantos outros portugueses e estrangeiros que não têm residência na Região Autónoma da Madeira.


Como seria feito? Vinham uma semana de férias à Madeira/Porto Santo, para ficarem em “prisão domiciliária”? E eu, que tinha que fazer escala na Madeira antes de vir para o Porto Santo, iria cumprir esse isolamento onde? Na Madeira? Tratei de me informar… visitei os sites governamentais da RAM, nomeadamente o site dedicado ao “bicho”, fiz uns telefonemas e consegui obter todas as informações que queria.
Fiquei estupefacto com o que descobri e me foi informado por fontes oficiais… Questionei acerca da minha vinda para o Porto Santo. A resposta foi simples: “Faz o teste no aeroporto da Madeira, segue para a área das partidas, e apanha normalmente o avião para o Porto Santo.


Soaram os alarmes… Então, sem ter o resultado do teste metem-me assim num avião, que até por acaso estava quase cheio? E se eu testar positivo? Next…


Perguntaram-me: “Mas tem residência no Porto Santo?”, à qual respondi
afirmativamente. Resposta do outro lado: “Ahh! Tem que fazer isolamento até o resultado do segundo teste! Se tivesse a residência no continente bastava ter o resultado de um teste, mesmo que fosse feito apenas no aeroporto!”


Soaram, novamente, os alarmes, e desta vez ainda mais sonoros… Quer dizer que os residentes no continente só precisam de um teste e os residentes na RAM precisam de dois? E aqueles muitos estudantes e trabalhadores que, sendo naturais da RAM, têm a sua residência no continente que vão vir passar as festas a casa com a família, como é? Só fazem um teste? E se der negativo não têm que repetir? Que tenho eu a menos que eles? Não somos todos portugueses (como gosta de afirmar o senhor presidente quando lhe convêm)? Parece que não…


Decidi, naquele exato momento, que os meus esclarecimentos estavam
terminados. Comentei esta situação com um amigo meu que me disse: “Pois, os madeirenses não vão para lá gastar dinheiro!” e nesse momento, fez-se luz…


Realmente, o Governo Regional deixou, para mim e na minha modesta opinião, bem claro qual a sua prioridade. Infelizmente não é controlar, como deve de ser, a pandemia, mas sim, ter os turistas a “gastar” na economia da Região. Ao fim de contas, não se vê qualquer preocupação com a saúde pública, mas um único e exclusivo interesse com a economia.

“Quem é que afinal trata o português, e os outros visitantes, como sendo de primeira e o madeirense de segunda?”


É verdade que todos os comerciantes precisam que se consuma, e que a nossa economia está deveras fragilizada, mas será que compensa o risco que se corre, para se ganharem mais algumas “coroas”?
Já oiço ao longe os “puristas” e “tachistas”, quais profissionais da arte de
“lambuzar”, dizer: “Ah e tal, isto é para controlar os contactos com o pessoal da Ilha, para se tiveres infetado não passares a ninguém.”. Certíssimo, e concordo em pleno!


Mas os visitantes não residentes também não podem vir a testar positivo e/ou a ter sintomas após estarem cá? Ou o “bicho” só faz incubação nos residentes? E, se o Governo Regional impôs estas medidas, porque não assume as despesas relativas a isso no que toca a material de proteção individual dos enfermeiros, que têm que pedir aos “isolados” que furem o isolamento e se desloquem ao centro de saúde para fazerem o segundo teste pois não podem andar a gastar muito material? Agora pergunto… Quem é que afinal trata o português, e os outros visitantes, como sendo de primeira e o madeirense de segunda?


Já diz o ditado que “quem não se sente, não é filho de boa gente”!
Aprendizes de feiticeiro, como diriam alguns… O importante é haver dinheiro para o fogo do fim do ano!
“Qui habet audiendi, audiat!” Boas festas!

P.S.: Como cumpridor das leis e normativos vigentes em cada território do espaço nacional, encontro-me em “prisão domiciliária” até o resultado do segundo teste, apesar de já ter a tão desejada negativa no primeiro teste!

Carlos Silva

Depois de uma viagem tranquila, mergulhado num mar de dúvidas, aportei a 2 de setembro de 1999, à Ilha do Porto Santo! À chegada, uma doce e quente onda de calor, qual afago de mulher amada, assaltou-me, até hoje! Do sucedido de então, até aos dias de hoje, guardo-o na memória; os sucessos, de hoje em diante, aqui ficam, para memória futura, da minha passagem pela Ilha!

2 thoughts on “Crónica de uma quarentena anunciada

  1. Exatamente o que eu sinto . Também já passei por isso e enquanto esperava pelo segundo teste foi trabalhar…..não podia contactar com as colegas,não podia ir ao refeitório,não podia circular nos corredores e tinha que estar devidamente equipada….mas podia contactar os utentes fazendo a minha atividade diária que é de muita proximidade…..contestei se o melhor não seria ficar em casa( vale o que vale) foi-me dito que não passariam justificação se isso acontecesse . Fiquei a trabalhar mas em protesto retirei o equipamento de austronata no entanto continuem sem frequentar o refeitório e sem contactar os colegas . Bom dia ebom confinamento

    1. Obrigado pelo seu comentário! Penso que no final desta História, muitas serão as histórias para as quais não haverá explicação. Vamos continuar a trabalhar e, cada um, dar o seu melhor. Feliz Natal!

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Dom Dez 13 , 2020